Quando a gente perde alguém a quem ama muito, perde também muitos referenciais. Eu fiquei assim no dia 30 de abril de 2017, quando perdi meu marido. De repente eu me vi separada de toda a ordem da minha vida, imersa em um bolo de linha que eu não fazia ideia de como desfazer. Mas não tinha opção. Fui me reconstruindo de dentro pra fora. Nesse caminho, comecei a ler sobre o Tantra. Tudo nessas leituras conversava comigo. Percebi que tinha muitas questões para resolver comigo mesma. Pontos para reconectar. E comecei a procurar um terapeuta para fazer uma sessão. Recebi algumas indicações, segui alguns perfis nas redes sociais. Mas nada me convencia. Parecia tudo muito equivocado, tudo muito focado em sexo quando, na verdade, a sexualidade é uma parte do Tantra. Mas nunca o todo e o único. Até que achei o Leandro. No começo, fiquei meio desconfiada. Um cara bonitão desses, postando essas fotos, bem narcisista. Mas, pelo menos, as mensagens não traziam nada de varejão, de pacote, de orgasmos embalados como remédio. Será? Mandei uma mensagem pedindo para que ele me avisasse quando tivesse vaga. Ele respondeu que tinha um dia livre bem próximo. Marquei. Depois fiquei com medo. O que eu fiz? Desmarquei inventando uma desculpa qualquer. Mas tinha outra vaga. Decidi ir. Eu já fazia massagem craniossacral e amava. Perguntei com que tipo de roupa eu tinha que ir. O Leandro me mandou o link do site dele. E lá estava escrito: sem roupa. Céus! Como eu ia ficar sem roupa na frente de um estranho, gatão e altamente mastigável?
Eu contei para o meu outro terapeuta que havia marcado a sessão de massagem tântrica. Ele surtou. Preocupou-se com a onda de aproveitadores e abusadores que tomou Brasília nos últimos anos. Eu disse que ia ficar atenta. Que avaliaria a energia do Leandro. E lá fui eu. Cedinho, numa segunda-feira, com aquelas preocupações que hoje acho ridículas sobre o meu corpo, sobre como iria me comportar. Encontrei Leandro debaixo do bloco, voltando de um passeio com a Vivi. E me apaixonei. Pela Vivi. O Leandro é ainda mais gato e mais mastigável pessoalmente, mas sabe aquela vibe tranquila, de quem está vivendo ali, no presente? Não dá para transferir qualquer sentimento de urgência para uma pessoa assim. Subimos para um apartamento lindamente decorado, coisa de quem se gosta, de quem quer proporcionar para si e para as pessoas próximas o melhor. Sentei no sofá, ele sentou na cadeira em frente, com a Vivi no colo. E foram três horas de conversa, em que falei com um estranho coisas que nunca pensei em falar. Chorei, ri… já senti minha energia mudando ali. Contei sobre as preocupações do meu terapeuta. Leandro deu razão a ele. Disse que só entraríamos para a massagem se eu me sentisse à vontade. Vieram umas perguntas de ordem prática. Para mim, o momento da massagem já parecia um caminho natural, como a sequência do que começou com a conversa. Faltava eu unir o corpo à alma que já fora massageada na conversa de três horas. Fui tomar uma ducha. E, sem roupas, sem medos e sem julgamentos, entrei no quarto de massagem, todo ambientado, penumbra, incenso, música.
A primeira parte foi uma massagem com um lençol de seda. Minha pele se acendeu. Depois, a massagem seguiu com toque leves. Nesse momento, percebi que o moço bonito e gente boa não existia mais ali. Não era mais o Leandro. Eu só sentia uma energia vinda de mim. E ali estava uma mulher que passou a vida querendo agradar aos outros sem ter a quem agradar além dela mesma. Foi libertador. Uma viagem por lugares, ouvindo vozes, sem medo, por saber que os lugares e as vozes eram meus. A mensagem era: que bom ter você de volta. Não percebi a hora do início da manipulação genital. Não houve uma quebra deste momento para aquele momento. Era tudo fluído. Até então, eu conhecia meus orgasmos. Sabia os sinais, de onde eles vinham e como acabavam. Ali, eu não conseguia definir de onde vinham aquelas ondas. Parecia que eu tinha orgasmos até no meu pé. E não parava. Não me dava gastura como normalmente eu sentia. Não contei quantos foram. Foram muitos e nada silenciosos. Eu estava ali por mim e comigo. E foi a experiência mais doce e explosiva da minha vida. Não era o Leandro. Era EU. Eu estava descobrindo minha capacidade de expandir minhas sensações para além do meu corpo. E tudo isso era para mim. Do mesmo jeito tranquilo que tudo aconteceu, foi acabando. E eu me sentia boiando em um lago. Só fui me dar conta da presença do Leandro depois que saí do banho. Eu estava tão energizada e feliz por saber que era capaz de sentir tudo aquilo. Essa sensação me acompanha até hoje, mais de um mês depois da primeira sessão.
Não resolvi todas as minhas questões. É um caminho longo à minha frente. Mas dei os primeiros passos. E o que ressoa na minha cabeça é um trecho da nossa conversa, quando eu disse que tinha vontade de viajar muito, e o Leandro propôs que eu começasse com uma viagem para dentro. E assim tem sido. Meu melhor destino, meu caminho mais íngreme, meu céu mais estrelado.
Obrigada, Lê. O meu medo de me apaixonar por você se transformou em um afeto muito mais precioso. Além disso, eu nunca poderia me apaixonar por alguém que não lê Lispector.
Fabrícia Gouveia.
